Começou como uma manha fria, e uma tarde quente que acabou culminando numa noite fria. Nada resumiria melhor o que foi o jogo, nem o que foi o dia. Tudo dera errado, apesar de nada ter fugido de uma normalidade cotidianam, parecendo uma música da Maria Rita, ou seja, até que foi legal, bonito, mas você sabe que no fim vai ser aquilo e só aquilo mesmo. É isso, o jogo e o dia foram mais ou menos assim.Chegando em casa lá pelas 21:30, com frio em todas as partes do corpo, só conseguia pensar em uma coisa, e não, não era o Flamengo, mas sim, comida. A fome era grande, e estava convencido de que os 20 minutos de sobra se encaixariam perfeitamente para sacia-la. Ledo engano. Ao chegar em casa me deparei com a maior solidão existencial que um ser humano pode sentir, uma geladeira e um armário vazios. Resolvi então comer uns biscoitos e tomar um copo de coca, pra pelo menos enganar a maldita até a patroa chegar com os hamburgueres feitos na tal da "chapa nova" da lanchonete lá do restaurante.
O segundo sinal de que a noite não seria das melhores, foi aquele maldito clima de shopping. Um friozinho peculiar, mas sem chuva alguma. Me sentia em Porto alegre, e por um momento achei que fosse um bom sinal. Outra vez, ledo engano. Sem comida, com frio e tomando uma coca-cola com gosto de pepsi, o prognóstico não era dos melhores. Mesmo assim, quando rolou a bola(e a comida continuou sem rolar), não consegui sentar na cama um segundo sequer. Até que aos 30 e tantos minutos o Juan, depois de tanto me ver andando de um lado pro outro com o coiote na mão e pedir, educadamente, para que sentasse,me obrigou a fazê-lo. Com uma enfiada de bola primorosa, deixando Nilmar no mano a mano com airton e eu, sentado na cama. 1 x 0 Internacional.
O resto do primeiro tempo, confesso, tenho vagas lembranças. Um tal de bola pro alto, passe errado e coiote jogado contra meu armário. Fim de papo no primeiro tempo. Admito que desliguei a TV, não iria aguentar assistir as entrevistas do Juan, depois daquela magistral enfiada de bola pra Nilmar, com a sua típica falsa modéstia. Fiz meu próprio show do intervalo, ainda sem comida. Não me entendam mal, só fui dividir minha indignação com os amigos de blog. E por curioso que seja, a concordância geral era de que: O Juan deu mole, mas ainda dá. No fundo eu só estava a enganar meus instintos que diziam: não Rafael, não dá.
Quando rolou a bola pro segundo tempo, o ânimo se elevou um pouco. Não muito por causa do time, que voltara o mesmo pro segundo tempo, mas por que os malditos hamburgueres haviam chegado. Mas como dizem: alegria de pobre dura pouco, muito pouco na bem da verdade. Logo descobri que os hamburgueres não eram tão bons quanto eu desejava que fossem, e que mesmo com toda aquela fome servindo de tempero pra eles, continuavam desagradáveis até mesmo para os paladares menos refinados. Também ai uma coincidência com o jogo, aos 20 e todos do segundo tempo, salvo engano, Ibson consegue uma excelente enfiada de bola, não tão boa quanto a do craque Juan, mas ainda sim válida, achando Kléberson bem aberto pela direita em condições de cruzar rasteiro para Émerson, depois de 467 ciclos lunares, o ataque rubro negro voltava a fazer eu gritar de alegria e não de desespero. Barriga cheia, coiote voando no armário, gritos ecoando por todo prédio e 1 x 1 no placar.
Mas como dito anteriormente, assim como no caso da comida, a alegria durou pouco, muito pouco. A sensação, mesmo após o gol, não era das melhores. Alguma coisa me engustiava e me dizia a cada falta perto da nossa área: é agora, acabou. A cada bola aliviada, um alivio no meu peito. O Flamengo havera recuado demais, não era algo apenas sensível no mundo das ideias, como diria Platão, mas também no mundo empírico. O momento derradeiro chega, e disso tenho exata certeza, aos 43 do segundo tempo. Ibson comete falta infantil na entrada da área, posicionam-se Andrezinho, famigerada cria do Flamengo e o argentino D'alessandro.
Bruno posiona-se ao lado da trave para armar a barreira, era uma falta frontal muito perigosa. Coloca-se muito a direita, deixa o canto esquerdo muito exposto. Comentei comigo mesmo: - Dá um passo pra esquerda, Bruno.
Ele não deu, Andrezinho bateu e a gente se fudeu. 2 x 1 no placar e vaga assegurada para o Internacional.
Um turbilhão de pensamentos tomou conta da minha cabeça. Como sempre ocorre quando uma derrota importante é iminente. Acontece, pensei. Nessas horas tudo o que nos resta é se despedir educadamente no MSN e ir deitar, pois a vida segue. A vida segue, e talvez seja esse o problema no Flamengo, é que a vida sempre segue.
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O quadro "Diário de bordo de um flamenguista" é escrito pelo estudante de história e gerente de restaurante, Rafael Cunha, após todo jogo do Flamengo.
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O quadro "Diário de bordo de um flamenguista" é escrito pelo estudante de história e gerente de restaurante, Rafael Cunha, após todo jogo do Flamengo.
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